Toxina botulínica no ombro ganha espaço como aliada no tratamento da tensão muscular crônica

Toxina botulínica no ombro ganha espaço como aliada no tratamento da tensão muscular crônica

Foto arquivo pessoal da Dra Meiry Foto arquivo pessoal da Dra Meiry

Procedimento, antes restrito à estética, hoje é utilizado em casos de dor persistente, espasticidade e sobrecarga muscular, sempre associado à fisioterapia

A rigidez constante nos ombros, a sensação de peso no pescoço e as dores que irradiam para a cabeça deixou de ser apenas queixas pontuais e passaram a integrar a rotina de milhões de brasileiros. O crescimento do trabalho em frente às telas, o aumento do estresse e os hábitos posturais inadequados transformaram a tensão muscular crônica em um problema de saúde pública silencioso.

Nos últimos anos, um recurso antes conhecido quase exclusivamente pelo uso estético passou a ganhar destaque também na reabilitação: a toxina botulínica aplicada na região do ombro, com finalidade terapêutica. A técnica vem sendo utilizada em contextos bem definidos, especialmente quando métodos tradicionais não conseguem, sozinhos, controlar a dor e o excesso de contração muscular.

Segundo a fisioterapeuta Meiry Akemi, o tratamento não deve ser visto como solução isolada, mas como parte de uma estratégia integrada.

“A toxina cria uma janela terapêutica muito valiosa. Ao reduzir temporariamente a hiperatividade do músculo, conseguimos trabalhar movimento, postura e força com muito mais eficiência”, explica.

Por que os ombros acumulam tanta tensão?

A região do ombro faz parte de um complexo sistema que envolve coluna cervical, escápulas e membros superiores. Ela sustenta movimentos amplos, estabiliza cargas e responde diretamente a estados emocionais, como ansiedade e estresse.

Entre os principais fatores associados à tensão crônica estão:

  • Permanência prolongada em posição sentada;
  • Uso excessivo de celular e computador;
  • Sobrecarga unilateral (bolsas pesadas, mochilas, atividades repetitivas);
  • Bruxismo e distúrbios do sono;
  • Doenças neurológicas, como sequelas de AVC.

Com o tempo, o músculo permanece em contração contínua, com menor irrigação sanguínea, acúmulo de metabólitos e ativação constante de pontos dolorosos, conhecidos como gatilhos miofasciais. É nesse cenário que a toxina botulínica passa a ser considerada.

Como a toxina botulínica age no alívio da dor

A toxina botulínica atua bloqueando a comunicação entre o nervo e o músculo, reduzindo temporariamente a contração excessiva. Isso permite que a musculatura “relaxe”, diminuindo a compressão de estruturas vizinhas, como nervos e articulações.

Além do efeito mecânico, estudos demonstram que a substância também interfere em mediadores químicos da dor, reduzindo a sensibilidade dolorosa local. Por isso, seu uso vai além da estética e alcança áreas como ortopedia, neurologia e reabilitação.

Em quais situações a aplicação é indicada

A toxina botulínica no ombro é indicada principalmente em casos específicos, após avaliação clínica rigorosa. Entre as situações mais comuns estão:

  • Tensão persistente no trapézio e na musculatura cervical;
  • Dor miofascial crônica de difícil controle;
  • Cefaleias tensionais relacionadas ao excesso de contração muscular;
  • Espasticidade em pacientes pós-AVC;
  • Limitação de movimento por rigidez muscular mantida.

Há também aplicações em contexto funcional-estético, quando a hipertrofia dolorosa do trapézio altera a harmonia da região do pescoço e dos ombros.

De acordo com Meiry Akemi, a seleção do paciente é um ponto-chave:

“Nem toda dor no ombro é indicação de toxina. Primeiro esgotamos os recursos conservadores. Quando a musculatura permanece rígida, limitando função e qualidade de vida, aí sim o procedimento passa a ser considerado.”

O procedimento: como funciona na prática

A aplicação é realizada por profissional habilitado, em consultório ou ambiente hospitalar, com técnica segura. O processo inclui:

  1. Avaliação clínica e funcional detalhada;
  2. Identificação precisa dos músculos mais sobrecarregados;
  3. Definição da dose e dos pontos de aplicação;
  4. Injeção com agulha fina, geralmente bem tolerada.

O efeito não é imediato. Ele costuma iniciar entre três e sete dias, com pico de ação por volta de duas semanas. A duração média varia de três a quatro meses.

Durante esse período, a fisioterapia torna-se indispensável.

A importância da fisioterapia associada

Para a fisioterapeuta Meiry Akemi, a toxina não substitui o tratamento fisioterapêutico — ela potencializa seus resultados.

“Se a pessoa apenas aplica a toxina, mas não muda postura, não fortalece a musculatura correta e não altera seus hábitos, a sobrecarga retorna. O que faz diferença real é o conjunto do tratamento.”

O plano fisioterapêutico normalmente inclui:

  • Alongamentos específicos;
  • Fortalecimento do manguito rotador e escápulas;
  • Reeducação postural;
  • Ajustes ergonômicos;
  • Terapias manuais para manutenção do alívio.

Casos clínicos reforçam a eficácia do método

Na prática clínica e em estudos científicos, há relatos consistentes de pacientes com sequelas de AVC que apresentavam dor intensa e limitação funcional no ombro. Após a aplicação de toxina botulínica associada à fisioterapia, houve redução significativa da dor, aumento do movimento e melhora da autonomia.

Também são frequentes os casos de adultos ativos, com dor crônica no trapézio e cefaleias tensionais, que relatam importante melhora funcional após o tratamento combinado.

Riscos e cuidados

Embora seja considerado um procedimento seguro, a toxina botulínica exige cuidados:

  • Pode causar dor local e pequenos hematomas;
  • Em casos raros, pode gerar fraqueza muscular temporária excessiva;
  • Não é indicada para gestantes, lactantes e pessoas com algumas doenças neuromusculares específicas.

A avaliação do profissional habilitado é obrigatória, e o acompanhamento fisioterapêutico é fortemente recomendado.

Um recurso moderno para um problema cada vez mais comum

Diante do aumento dos quadros de tensão muscular, a toxina botulínica surge como uma alternativa moderna, eficaz e segura quando bem utilizada. Longe de ser apenas um procedimento estético, ela hoje integra os protocolos de reabilitação de dor e disfunções musculares.

Para Meiry Akemi, o principal ganho é devolver autonomia ao paciente:

“Quando a dor diminui, a pessoa consegue se movimentar melhor, dormir melhor, trabalhar com menos limitação. Isso muda completamente a percepção de qualidade de vida.”

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