Investigação revela como créditos de carbono inflaram fundos ligados ao Banco Master e à família Vorcaro
Ativos ambientais sem liquidez comprovada, terras sob suspeita e avaliações bilionárias colocam projeto amazônico no centro de uma das maiores controvérsias recentes do mercado financeiro
Uma apuração aprofundada conduzida a partir de documentos, registros societários e análises técnicas aponta que um projeto de créditos de carbono localizado na Amazônia teria sido utilizado para inflar artificialmente o patrimônio de fundos de investimento ligados ao Banco Master. O caso envolve empresas controladas por integrantes da família Vorcaro e acendeu o alerta de órgãos de fiscalização e especialistas do setor financeiro.
No centro da estrutura está a Alliance Participações, empresa registrada em nome de Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel, pai e irmã de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A companhia figura como detentora majoritária de um projeto ambiental no município de Apuí, no sul do Amazonas, região marcada por histórico de conflitos fundiários e pressão ambiental.
Da floresta ao balanço: como estimativas viraram bilhões
Segundo a investigação, o projeto passou a ganhar relevância financeira quando estimativas futuras de geração de créditos de carbono foram incorporadas a fundos administrados pela Reag Investimentos. Esses ativos passaram a constar nos balanços como patrimônio efetivo, impulsionando os fundos em dezenas de bilhões de reais.
O ponto central da controvérsia é que os créditos não possuíam liquidez comprovada, histórico consistente de vendas nem certificações amplamente reconhecidas. Ainda assim, foram tratados como ativos de alto valor. “Trata-se da conversão de expectativa em valor contábil, sem que o mercado tenha validado esse preço”, afirma um analista financeiro ouvido pela reportagem.
Terras sob suspeita e risco de nulidade dos créditos
Outro eixo crítico da apuração envolve a origem das terras utilizadas no projeto. Há indícios de que parte da área possa envolver terras públicas ou propriedades com pendências fundiárias, o que comprometeria a legalidade da geração dos créditos de carbono. Caso isso seja confirmado, os ativos utilizados pelos fundos poderiam ser considerados juridicamente inválidos.
Esse cenário levou o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) a solicitar a abertura de investigação no TCU. Em manifestação preliminar, o órgão alertou que “a utilização de ativos ambientais de valor incerto para inflar fundos de investimento representa risco sistêmico e potencial prejuízo a investidores”.
Estrutura familiar e separação formal de responsabilidades
Embora Daniel Vorcaro não figure formalmente como sócio do projeto, a investigação destaca a ligação direta entre o empreendimento e seus familiares mais próximos. Especialistas em governança corporativa apontam que, mesmo sem participação societária direta, estruturas desse tipo levantam questionamentos sobre conflitos de interesse e transparência.
“A separação formal não elimina o risco reputacional nem a necessidade de escrutínio rigoroso”, avalia um especialista em compliance financeiro.
O que dizem os envolvidos
Em nota, Daniel Vorcaro afirmou que não participa do projeto de créditos de carbono e que o Banco Master não atua na estruturação, certificação ou precificação desses ativos. Segundo ele, “o banco não interfere em projetos ambientais privados”.
A Alliance Participações negou irregularidades e afirmou que o projeto segue critérios técnicos. Em comunicado, a empresa declarou que a valoração dos créditos “reflete expectativas de um mercado de carbono em expansão” e que os ativos estão sujeitos a revisões e auditorias.
Um alerta para o mercado financeiro e o mercado de carbono
O caso expõe fragilidades estruturais do mercado de créditos de carbono no Brasil, especialmente quando esses ativos passam a ser utilizados como instrumentos de valorização patrimonial em fundos financeiros. Especialistas defendem regras mais rígidas, limites objetivos para precificação e fiscalização contínua.
Enquanto as investigações avançam, o episódio amplia a pressão sobre o Banco Master e pode se tornar um marco regulatório para o uso de ativos ambientais no sistema financeiro. Mais do que um caso isolado, a apuração levanta uma pergunta central: até onde vai a fronteira entre sustentabilidade, inovação financeira e distorção contábil?










